Solidão é silenciosa e gorda. Ela é uma mulher de chapéu de festa verde periquito com paetê rosa. Com sombra pesada nas pálpebras, o piscar de olhos chama mais atenção do que os olhos em si, murchos e sem graça. Solidão tem uma aura escura e densa e deve-se evitar bocejos em sua presença. Quando ela senta à mesa de jantar, a indigestão é eminente, iniciada por um soluço agudo e alto que demora a passar. Ela não fala, posto que é silenciosa, mas sua presença é marcante: ela só te olha e te invade os mais íntimos pensamentos. Uns fingem, outros estampam na cara uma vermelidão de culpa sem gracisse. Ela sabe que é potente, mesmo sendo cafona e feia, porém também sabe dos seus limites e suas fragilidades e levanta-se delicadamente, virando as costas, sem de despedir e vai embora. Mas isso para uns demora. Solidão é amiga do tempo. Sua onipresença me incomada e sinto que divido a cama com ela. Quando penso que isso é impossível e vou acender a luz para me certificar de que estou sozinho, lá está ela, na cadeira da escrivaninha, me olhando com seus olhos idiotas. Não conto ou reclamo a ninguém, isso a fará mais forte, mais gorda e espaçosa.
No lado de fora do café, encontro uma mesa vazia e sento-me. Leio uma revista fútil para parecer entretido com alguma coisa. Lá vem ela. A reconheço de longe e vem e minha direção. Faço como não a tivesse visto, mas ela sabe, ela olha e me invade, ela está vindo pra mim.
Peço ao garçom mais uma xícara de café e entrego a ela, mas ela faz pouco caso e nem agradece.
Levanto e a deixo com o café, com a revista e com a conta pra pagar.
Tuesday, March 3, 2009
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Um céu sem nuvens, solidão
ReplyDeleteUma torneira sem água, Solidão
Uma carteira sem dinheiro, SOLidão
Um coração sem amor, SOLIDÃO
Thesm
Eu conheço bem essa Senhora que se apresenta nas mais variadas formas, no deserto ou na mais agitada cidade.
ReplyDeleteSei de cor os seus traços e feições...
Lindo texto!
Beijos